“Achei ser esse um bom
lugar para assentar-me da água fresca, mas eu devia estar lá por quase metade
de um quarto de hora quando vi uma coisa imensa saindo da água, com escamas
enormes nas costas, garras horríveis e uma cauda comprida. Essa fera veio e
minha direção e, quando vi que não tinha meios de afugentá-la, decidi
enfrentá-la, mas, ao me aproximar, estaquei espantado em ver uma criatura tão
monstruosa. Nesse instante, a fera parou, abriu a boca e lançou para fora uma língua
comprida como um arpão. Encomendei minha alma a Deus esperando ser despedaçado,
mas a fera virou-se e voltou para dentro do rio, e eu continuei seguindo pela
beira.*
* Quase todos os
cronistas do século XVI descrevem monstros marinhos que surgem em praias e
rios. No entanto, a descrição de Knivet se afasta das outras (mais
fantasiosas), e parece referir-se a um jacaré.”
(KNIVET, Anthony. As
Incríveis Aventuras e Estranhos Infortúnios de Anthony Knivet: Memórias de um
aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e
foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens. Tradução
da primeira edição em inglês, Londres, 1625.)
Essa afirmação categórica
por parte da organizadora da obra como nota é perigosa quando aponta o animal
como um possível jacaré. Mas, ainda assim, é importante como reflexão. Até
porque, deve-se levar em conta a necessidade de impactar com a leitura e,
portanto, construir seres para legitimar experiências e fatos.
No estudo do
imaginário, podemos perceber os símbolos e significados como reais a quem lhes
confere; portanto, é interessante atentar que, aquilo que para nós pode ser
parte de uma realidade comum – o jacaré – para homens de outro tempo podem
aparentar como incríveis, fantásticos. E o mais interessante ainda: se esses
homens o tratam como criaturas monstruosas, então não deveriam ser? Acredito
que sim. Afinal, hoje temos toda uma rede classificatória dos seres vivos,
tanto no campo científico quanto no cultural/popular. Um tubarão, por exemplo,
é mais um animal na fauna marítima, sendo especificado biologicamente, assim
como vulgarmente. Em suma, um animal que poucos gostariam de cruzar. Agora
imaginemos esse animal em plenos séculos XVI-XVII... Uma criatura abominável. E
são estes animais, e talvez até outros extintos, que produzem na mente desses
homens a necessidade de imaginar algo mais e mais absurdo, aterrorizador. É uma
vontade até mesmo de desvincular-se de sua realidade que, segundo a autora
Laura de Mello e Souza, encontrava-se “tão comum”. Não é à toa o impulso que muitas
expedições tomam justamente pela vontade do “diferente”. Busca-se, além de
riqueza material, o “maravilhoso”. Desbrava-se uma terra e nada se descobre,
tanto de um como de outro, ou dos dois; então, “não é bem este local, mas quem
sabe aquele”. E nisso, uma rede explorações vai se formando. É claro, um
objetivo não predomina sobre o outro; ou melhor, não tenho respaldo nenhum para
afirmar isso. Mas é notável que, em alguns casos, um fator não vive sem o
outro.
Portanto, nessa meio
que “antropologia psico-cultural” (assim arrisco-me a dizer, mesmo cometendo
algum erro grave), se faz divertido entendermos o jacaré, o tubarão, seja lá
que bicho for, como monstros sob o olhar do indivíduo de seu tempo. Claro que
há perigos em afirmações absolutas, concretas. Mas que também não nos impeçamos
de pensar. Creio ser interessante o pesquisador manter sempre vivo o seu “imaginário
de historiador”. Mas que não viva em fantasias.

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