sábado, 31 de maio de 2014

Rapidamente: imaginário e monstros (século XVI-XVII).



Achei ser esse um bom lugar para assentar-me da água fresca, mas eu devia estar lá por quase metade de um quarto de hora quando vi uma coisa imensa saindo da água, com escamas enormes nas costas, garras horríveis e uma cauda comprida. Essa fera veio e minha direção e, quando vi que não tinha meios de afugentá-la, decidi enfrentá-la, mas, ao me aproximar, estaquei espantado em ver uma criatura tão monstruosa. Nesse instante, a fera parou, abriu a boca e lançou para fora uma língua comprida como um arpão. Encomendei minha alma a Deus esperando ser despedaçado, mas a fera virou-se e voltou para dentro do rio, e eu continuei seguindo pela beira.*

* Quase todos os cronistas do século XVI descrevem monstros marinhos que surgem em praias e rios. No entanto, a descrição de Knivet se afasta das outras (mais fantasiosas), e parece referir-se a um jacaré.”

(KNIVET, Anthony. As Incríveis Aventuras e Estranhos Infortúnios de Anthony Knivet: Memórias de um aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens. Tradução da primeira edição em inglês, Londres, 1625.)


   Essa afirmação categórica por parte da organizadora da obra como nota é perigosa quando aponta o animal como um possível jacaré. Mas, ainda assim, é importante como reflexão. Até porque, deve-se levar em conta a necessidade de impactar com a leitura e, portanto, construir seres para legitimar experiências e fatos.
   No estudo do imaginário, podemos perceber os símbolos e significados como reais a quem lhes confere; portanto, é interessante atentar que, aquilo que para nós pode ser parte de uma realidade comum – o jacaré – para homens de outro tempo podem aparentar como incríveis, fantásticos. E o mais interessante ainda: se esses homens o tratam como criaturas monstruosas, então não deveriam ser? Acredito que sim. Afinal, hoje temos toda uma rede classificatória dos seres vivos, tanto no campo científico quanto no cultural/popular. Um tubarão, por exemplo, é mais um animal na fauna marítima, sendo especificado biologicamente, assim como vulgarmente. Em suma, um animal que poucos gostariam de cruzar. Agora imaginemos esse animal em plenos séculos XVI-XVII... Uma criatura abominável. E são estes animais, e talvez até outros extintos, que produzem na mente desses homens a necessidade de imaginar algo mais e mais absurdo, aterrorizador. É uma vontade até mesmo de desvincular-se de sua realidade que, segundo a autora Laura de Mello e Souza, encontrava-se “tão comum”. Não é à toa o impulso que muitas expedições tomam justamente pela vontade do “diferente”. Busca-se, além de riqueza material, o “maravilhoso”. Desbrava-se uma terra e nada se descobre, tanto de um como de outro, ou dos dois; então, “não é bem este local, mas quem sabe aquele”. E nisso, uma rede explorações vai se formando. É claro, um objetivo não predomina sobre o outro; ou melhor, não tenho respaldo nenhum para afirmar isso. Mas é notável que, em alguns casos, um fator não vive sem o outro.
   Portanto, nessa meio que “antropologia psico-cultural” (assim arrisco-me a dizer, mesmo cometendo algum erro grave), se faz divertido entendermos o jacaré, o tubarão, seja lá que bicho for, como monstros sob o olhar do indivíduo de seu tempo. Claro que há perigos em afirmações absolutas, concretas. Mas que também não nos impeçamos de pensar. Creio ser interessante o pesquisador manter sempre vivo o seu “imaginário de historiador”. Mas que não viva em fantasias.

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