sábado, 31 de maio de 2014

Marcelos: 18 vs 20

   O gostoso do estudo histórico não é apenas descobrir ao outro; não é apenas saber os “por que” e os “como”; não é apenas criticar e desconstruir o alheio... O gostoso mesmo da História é descobrir-se: paixões, sensações, angústias, medos até então inexplorados.
    Essa é a sensação que sinto com alguns excertos por aí. O de baixo, por exemplo, é tão elucidativo, tão caro a mim, que percebo o quão difícil é determinar o seguimento de estudo. É tanta informação, tanto descobrimento. Quem diria, eu, que ainda como vestibulando, só me aventurava a ler sobre Revolução Francesa, Revolução Industrial, Iluminismo, 1ª e 2ª Guerras, pois me fas

cinava com todos os floreios e romances que se constroem para tais assuntos: o povo heróico francês, o sofrimento do proletário inglês, a classe e intelectualidade dos iluministas, o choque e a apreensão de poder ver fotografias e vídeos sobre duas guerras ainda tão “recentes”, mas tão distantes. Às vezes, dependendo da forma como você vê, parece tudo tão literário, tão fantástico. Eis que um “imaginário” de quem se interessa por História. Mas a Universidade, ao mesmo tempo em que estilhaça fantasias, também proporciona sensações tão necessárias e ainda mágicas. O excerto no fim deste breve desabafo expõe isso.
    Com certeza, se fosse o Marcelo dos 17/18 anos, um mero aspirante a universitário, nem chegaria a dar atenção. “Ah, História do Brasil, mó paia. Massa é Revolução Francesa.” Quão culpado, mas quão ingênuo. Hoje, com esse pequeno excerto, esses “dois Marcelos” conflitam. Se aí, ao invés de tratar sobre Antônio Silvino, no Sertão nordestino, abordasse algum cavaleiro medieval em ermas terras européias, com certeza o êxtase seria maior. É impressionante nossa vontade de buscar o fantástico, o impactante, em lugares tão longe, se temos aqui fatos tão importantes, do nosso lado. Por que tirar uma selfie em um castelo medieval tem que ser absurdamente maravilhoso em detrimento de outras experiências? Poderia ser tão marcante, também, pisar no mesmo solo que outrora pisaram os membros do Caldeirão: tentar sentir suas alegrias, suas relações, seus medos, suas dores, suas esperanças... Por que Alexandre e Napoleão são grandiosos, belos, heróicos, enquanto Hitler, Mussolini, Stalin e tantos outros são “facínoras”? O que há de diferença, há de semelhança. Tanto aqueles dois quantos estes três últimos precisaram expandir, conquistar, matar. Por que Alexandre é mito? Muitos também não pereceram perante sua força? E Napoleão, tão enfeitado, tão admirado, também não impôs seu poder? Não proponho igualar indivíduos; apenas se faz necessário uma autocrítica de valores. No entanto, saber que Napoleão pôde ser tão atroz quanto qualquer outro líder sanguinário não deve ser impedimento para buscar conhecer sua história, seus feitos, conquistas e fracassos. E, ainda assim, sentir prazer.
    Enfim, eis o pequeno excerto sobre Antonio Silvino, extraído da obra “História do Cangaço”, de Maria Isaura de Queiroz. Intrigante, importante.

“Enfurecido, o cangaceiro retomou suas façanhas agora com mais audácia. Sorrateiro e misterioso, passava e repassava entre patrulhas, pelotões, destacamentos e tropas. A polícia, diante do pouco resultado de suas buscas, encarava-o quase como um fantasma. Reaparecia de imprevisto nas povoações matutas, apresentando-se como ‘procurador do governo’, cobrando impostos, principalmente de criadores e negociantes, e arrecadando assim dinheiro para financiar as despesas cotidianas de seu bando. Proclamou-se ‘governador do Sertão’, e negava qualquer legitimidade aos governos locais ou regionais. Sua ousadia chegou ao ponto de, por vezes, chamar autoridades policiais ao telefone, avisá-las do lugar onde se encontrava e telegrafar ao presidente do Estado a fim de desafiá-lo a que o capturasse.”

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