Manias.
Tenho
manias. Várias. Uma delas é ter manias. A outra é não ter mania alguma. Sou
cheio de coisas. Sou todo coisado.
Tenho
mania de procurar manias nos outros. Tenho mania de procurar manias em mim.
Descascar o lábio, roer as unhas, arrancar pedacinho de ferida, cheirar as
louças após lavá-las... Mas também tem horas que não tenho mania alguma. Não
sou pontual, faço apenas as coisas que quero fazer, estudo apenas os livros que
quero estudar, durmo a hora que for conveniente. Sou assim, um descontrolado
controlado por manias.
Às
vezes penso que poderia não ter mania alguma, mas às vezes acho necessário.
Gera um equilíbrio. Se minhas unhas estão ruídas, vou à manicure. Se meus
lábios estão feridos, passo cacau. Se a ferida não cicatriza perfeitamente,
eu... Orgulho-me de tê-la assim, parece que até fui pra guerra. Sinto-me um
sobrevivente de alguma coisa. Há quem goste de uma pele com um pouco de sofrimento.
Uma cicatriz é como uma cura de algo ruim, que está lá para sempre lembrar que
algo de ruim lhe aconteceu, mas que hoje você vive com isso normalmente, muito
próximo. Peles lisinhas, bonitas e suaves aparentam um corpo pouco ou nada dado
à aventura, ao diferente; alguém que vive sempre buscando uma bolha isolante do
mundo afora. Pele bonita parece demonstrar gente antipática, que não se deixa
tocar pelo mundo. Pele cicatrizada é fruto de uma relação selvagem e frenética
entre a vida e você. Quem é o ativo ou o passivo nesse caso, vai da
interpretação de cada um. Mas que tem gente que gosta de um corpo marcado, ah,
isso tem...
Mas
claro, isso que falei não é uma verdade absoluta. Um estranho paradoxo: toda
cicatriz é curada. Ou seja, a cicatriz representa o fim de uma ferida. Mas não
é a cicatriz a memória de uma ferida? Não é a cicatriz a representação da
existência daquela? Sabe, na História, para ter acesso ao passado, você tem um
“canal de comunicação” a que se dá o nome de fonte (que são de vários tipos e
formas, vários mesmo). Você interpreta a fonte e diz o que ela quer transmitir
do passado. Mas, em alguns casos, essa fonte não tem valor algum usual para a
contemporaneidade. De que serve uma certidão de óbito medieval para o dia a
dia? Ora, não nos interessamos nem pelas atuais. Mas, ainda assim, ela tem uma
vida, e algo a dizer sobre. A cicatriz é mais ou menos do mesmo tipo, e pode
ser boa ou ruim.
Ora.
Sim, boa ou ruim. Veja bem: você pode ter conquistado essa cicatriz depois de
ter vencido o torneio do colégio. Sei lá: você escorregou na quadra e ralou o
joelho, manteve-se no jogo e fez o gol da vitória. “Tá vendo essa cicatriz,
filha? Papai ganhou quando ganhou no torneio de futebol do colégio. Se um dia
eu não tiver mais o troféu, ainda terei a cicatriz”, talvez você diga isso no
futuro. Ou então você pode provavelmente um dia ir parar na delegacia após uma
briga de bar, onde lhe furaram com uma faca no braço. Provavelmente não será
uma boa lembrança, mas a maldita cicatriz insistirá em ficar lá.
Ora,
eu comecei falando de manias, de repente falei de cicatriz. De repente, falei
de outras coisas relacionadas a cicatriz. Veja bem, “que coisa confusa”, você
diz. “Ele está é lombrado”, você diz. Bem, tenho a mania de pensar que gosto de
escrever, mesmo que não escreva muito. E quando escrevo, tenho a mania de dizer
qualquer coisa. Ao mesmo tempo, não tenho a mania de ter que escrever coisa
alguma que faça sentido. Não preciso de foco ou “engajamento”. Sou comprometido
comigo mesmo. Tenho essa mania. Não tenho manias. Ora, não sei mais. Parece
tudo mania. Sempre gostei de jogar bola às 16 horas, nunca tive mania com
horário. Mas nunca gostei de jogar bola depois das 20h, tenho mania com
horário. Parece que tenho mania em não ter mania. Ou então mania de ter mania.
Ou
talvez não tenha mania alguma. Acho que estou dando muito crédito a psicologia.
Talvez deva parar de ver jornais e matérias especiais. Sempre tem algo sobre o
assunto. Tenho que perder a mania de ver televisão. Tenho que ter mania de não
vê-la.
Ah,
desisto. Não quero ter mais nada. Pronto, agora vou ter a mania de não querer
desejar mais nada; vou ter a mania de não querer ter manias, e vou achar que
não tenho mania alguma.
Pronto!
Viu? Agora estou cheio de manias, mesmo que não as tenha. Ai, essa mania de
ter/não ter mania.
Geni.