segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Manias.

Tenho manias. Várias. Uma delas é ter manias. A outra é não ter mania alguma. Sou cheio de coisas. Sou todo coisado.
Tenho mania de procurar manias nos outros. Tenho mania de procurar manias em mim. Descascar o lábio, roer as unhas, arrancar pedacinho de ferida, cheirar as louças após lavá-las... Mas também tem horas que não tenho mania alguma. Não sou pontual, faço apenas as coisas que quero fazer, estudo apenas os livros que quero estudar, durmo a hora que for conveniente. Sou assim, um descontrolado controlado por manias.
Às vezes penso que poderia não ter mania alguma, mas às vezes acho necessário. Gera um equilíbrio. Se minhas unhas estão ruídas, vou à manicure. Se meus lábios estão feridos, passo cacau. Se a ferida não cicatriza perfeitamente, eu... Orgulho-me de tê-la assim, parece que até fui pra guerra. Sinto-me um sobrevivente de alguma coisa. Há quem goste de uma pele com um pouco de sofrimento. Uma cicatriz é como uma cura de algo ruim, que está lá para sempre lembrar que algo de ruim lhe aconteceu, mas que hoje você vive com isso normalmente, muito próximo. Peles lisinhas, bonitas e suaves aparentam um corpo pouco ou nada dado à aventura, ao diferente; alguém que vive sempre buscando uma bolha isolante do mundo afora. Pele bonita parece demonstrar gente antipática, que não se deixa tocar pelo mundo. Pele cicatrizada é fruto de uma relação selvagem e frenética entre a vida e você. Quem é o ativo ou o passivo nesse caso, vai da interpretação de cada um. Mas que tem gente que gosta de um corpo marcado, ah, isso tem...
Mas claro, isso que falei não é uma verdade absoluta. Um estranho paradoxo: toda cicatriz é curada. Ou seja, a cicatriz representa o fim de uma ferida. Mas não é a cicatriz a memória de uma ferida? Não é a cicatriz a representação da existência daquela? Sabe, na História, para ter acesso ao passado, você tem um “canal de comunicação” a que se dá o nome de fonte (que são de vários tipos e formas, vários mesmo). Você interpreta a fonte e diz o que ela quer transmitir do passado. Mas, em alguns casos, essa fonte não tem valor algum usual para a contemporaneidade. De que serve uma certidão de óbito medieval para o dia a dia? Ora, não nos interessamos nem pelas atuais. Mas, ainda assim, ela tem uma vida, e algo a dizer sobre. A cicatriz é mais ou menos do mesmo tipo, e pode ser boa ou ruim.
Ora. Sim, boa ou ruim. Veja bem: você pode ter conquistado essa cicatriz depois de ter vencido o torneio do colégio. Sei lá: você escorregou na quadra e ralou o joelho, manteve-se no jogo e fez o gol da vitória. “Tá vendo essa cicatriz, filha? Papai ganhou quando ganhou no torneio de futebol do colégio. Se um dia eu não tiver mais o troféu, ainda terei a cicatriz”, talvez você diga isso no futuro. Ou então você pode provavelmente um dia ir parar na delegacia após uma briga de bar, onde lhe furaram com uma faca no braço. Provavelmente não será uma boa lembrança, mas a maldita cicatriz insistirá em ficar lá.
Ora, eu comecei falando de manias, de repente falei de cicatriz. De repente, falei de outras coisas relacionadas a cicatriz. Veja bem, “que coisa confusa”, você diz. “Ele está é lombrado”, você diz. Bem, tenho a mania de pensar que gosto de escrever, mesmo que não escreva muito. E quando escrevo, tenho a mania de dizer qualquer coisa. Ao mesmo tempo, não tenho a mania de ter que escrever coisa alguma que faça sentido. Não preciso de foco ou “engajamento”. Sou comprometido comigo mesmo. Tenho essa mania. Não tenho manias. Ora, não sei mais. Parece tudo mania. Sempre gostei de jogar bola às 16 horas, nunca tive mania com horário. Mas nunca gostei de jogar bola depois das 20h, tenho mania com horário. Parece que tenho mania em não ter mania. Ou então mania de ter mania.
Ou talvez não tenha mania alguma. Acho que estou dando muito crédito a psicologia. Talvez deva parar de ver jornais e matérias especiais. Sempre tem algo sobre o assunto. Tenho que perder a mania de ver televisão. Tenho que ter mania de não vê-la.
Ah, desisto. Não quero ter mais nada. Pronto, agora vou ter a mania de não querer desejar mais nada; vou ter a mania de não querer ter manias, e vou achar que não tenho mania alguma.
Pronto! Viu? Agora estou cheio de manias, mesmo que não as tenha. Ai, essa mania de ter/não ter mania.


Geni.

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