Perecer
e decompor-se.
Vieram
buscar-me. Levam embora cada parte de minha vida. Ainda que eu esteja aqui,
parado, sem oferecer perigo algum, ousam em retirar, perturbadoramente, cada
momento por mim vivido. Levam-me o feto; levam-me a infância primeira; levam de
mim as juventudes inocente e maliciosa. Todos os bons momentos, as alegrias:
estas se vão. Resta apenas o corpo em decomposição. Potencializam minha
consciência madura, crítica, reflexiva e, mais do que tudo, sensitiva, para que
eu sofra minuciosamente este sofrer.
Deixam-me
ao sofrer para que eu lhe cause
sofrimento. São terríveis! Minha condição amedronta o horror. Ao me ver, a alegria
passou a chorar. A tristeza há muito
já secou seu manancial de lágrimas. A doença
contaminou-se e está enferma. A dor
está cheias de dores! Quão maldita é minha condição! Até mesmo a maldição me abençoou, pois de mim quer
distância! Todos me abominam! O mal está
em péssima condição.
A
derrota se deu por vencida: nem pensa
em encarar-me. O ódio se solidarizou
com minha condição e passou a amar-me. E quem diria que a infelicidade veria em mim motivos suficientes para buscar ser
feliz?! Quão horrendo sou! Até mesmo no inferno sou renegado, pois Satã
perderia seu trono diante de tão vil criatura. O próprio Deus me rejeita: torno
impotente sua onipotência; minha imagem corrói sua onisciência; sou tão insuportável
que sua onipresença se ausentou.
Quanta
dor!
E
o que me resta? E me resta algo, por acaso?
Dei
fim ao fim, ele deixará de existir.
De tão convencido da minha condição apocalíptica, o nada tornou-se alguma coisa. Entretanto, o algo não é mais nada.
O
caos não suportou segundos ao meu
lado: ordenou-se e foi embora.
Quantas
contradições causei ao mundo! Quantas retas
eu entortei! Quantas verdades eu
tornei mentiras!
Até
quando isso irá durar? Como pode durar, já que o tempo está esgotado?
Pereço
e decomponho. Vou em busca da morte... Mas quão triste fiquei ao encontrar seu
recinto vazio: os murmúrios sobre minha presença se espalharam tão depressa que
a morte decidiu levantar-se e ir viver.
E a vida, ah, a vida... Esta saiu em vantagem: preferiu manter-se nesta condição, e
fez da morte, agora viva, sua serva eterna.
Eis
o que causa ao mundo um ser como eu: ao nascer, alvoroço; ao morrer, destroço.
Geni.
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