segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Perecer e decompor-se.

Vieram buscar-me. Levam embora cada parte de minha vida. Ainda que eu esteja aqui, parado, sem oferecer perigo algum, ousam em retirar, perturbadoramente, cada momento por mim vivido. Levam-me o feto; levam-me a infância primeira; levam de mim as juventudes inocente e maliciosa. Todos os bons momentos, as alegrias: estas se vão. Resta apenas o corpo em decomposição. Potencializam minha consciência madura, crítica, reflexiva e, mais do que tudo, sensitiva, para que eu sofra minuciosamente este sofrer.
Deixam-me ao sofrer para que eu lhe cause sofrimento. São terríveis! Minha condição amedronta o horror. Ao me ver, a alegria passou a chorar. A tristeza há muito já secou seu manancial de lágrimas. A doença contaminou-se e está enferma. A dor está cheias de dores! Quão maldita é minha condição! Até mesmo a maldição me abençoou, pois de mim quer distância! Todos me abominam! O mal está em péssima condição.
A derrota se deu por vencida: nem pensa em encarar-me. O ódio se solidarizou com minha condição e passou a amar-me. E quem diria que a infelicidade veria em mim motivos suficientes para buscar ser feliz?! Quão horrendo sou! Até mesmo no inferno sou renegado, pois Satã perderia seu trono diante de tão vil criatura. O próprio Deus me rejeita: torno impotente sua onipotência; minha imagem corrói sua onisciência; sou tão insuportável que sua onipresença se ausentou.
Quanta dor!
E o que me resta? E me resta algo, por acaso?
Dei fim ao fim, ele deixará de existir. De tão convencido da minha condição apocalíptica, o nada tornou-se alguma coisa. Entretanto, o algo não é mais nada.
O caos não suportou segundos ao meu lado: ordenou-se e foi embora.
Quantas contradições causei ao mundo! Quantas retas eu entortei! Quantas verdades eu tornei mentiras!
Até quando isso irá durar? Como pode durar, já que o tempo está esgotado?
Pereço e decomponho. Vou em busca da morte... Mas quão triste fiquei ao encontrar seu recinto vazio: os murmúrios sobre minha presença se espalharam tão depressa que a morte decidiu levantar-se e ir viver. E a vida, ah, a vida... Esta saiu em vantagem: preferiu manter-se nesta condição, e fez da morte, agora viva, sua serva eterna.
Eis o que causa ao mundo um ser como eu: ao nascer, alvoroço; ao morrer, destroço.

Geni.

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