A crise.
Mais um dia de luta. Sem emprego, sem dinheiro, sem
comida. Uma crise nunca antes vista. Todos os dias saio em busca de
oportunidade. É doloroso ouvir o choro do filho sem pão; da mulher, que chora
ao ver o filho chorar. Eu nem consigo mais chorar. Não sofro mais de
sofrimento, apesar de conviver com a dor de quem amo.
Nós, trabalhadores, seres vis sem alma, aprendemos
que a lei que nos rege é isenta de sensibilidade: nossa alegria é o benefício
do patrão; nossa adrenalina é uma meta alcançada. No entanto, quando há a
crise, ninguém nos ajuda: a nós, só resta a calçada.
E todos os dias têm sido assim: comida pouca, roupas
esfarrapadas, frio intenso, preocupação. Se temos que lutar pelo bem da nação,
somos todos convocados; quando surge a crise, somos todos dispensados. Meras
ferramentas.
Para alguns, é assim: na fábrica, somos alienados;
em casa, somos sugados; na rua, mero populacho. E eles, o que são? O progresso
e a normalidade. São os que regem a sociedade. Dizem que cuidam da cidade, do
estado, do país. Eles são os verdadeiros homens, enquanto nós somos criaturas
servis.
Somos todos adestrados através da miséria. Não temos
nada e eles têm tudo. Tem dinheiro, títulos, propriedades, tudo oficializado,
no papel. Mas a tudo que tem valor, precisa ser dado um valor. E se o valor
deles não nos valesse mais nada? Se suas cédulas fossem rasgadas? Seus títulos,
que são meras abstrações formais, fossem desvalorizados? Suas propriedades,
enfim, descartadas? O que aconteceria se toda a papelada fosse então queimada?
Seriam ainda “homens”, ou meras coisas sem alma? Seriam só mais um, como todos
nós, ou seus poderes emanam de si? Iriam
continuar a prosperar, ou definitivamente falir?
Para onde iriam (ou ficariam aqui)? Continuariam
patrões e senhores, políticos e doutores? Seriam maiores suas dores? Os amores
antes comprados, morreriam agora por eles de amores? Teriam uma vida preta e
branca, ou continuariam a apreciar as cores? Prefeririam martelos ou flores?
Não sei. Preciso ir trabalhar. Meu filho chora; em
casa, não se tem o que cozinhar.
Sofredores do
mundo inteiro, uni-vos...
Geni.
(Inspirado na "Crise de 1929", nos Estados Unidos da América.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário