sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A crise.

Mais um dia de luta. Sem emprego, sem dinheiro, sem comida. Uma crise nunca antes vista. Todos os dias saio em busca de oportunidade. É doloroso ouvir o choro do filho sem pão; da mulher, que chora ao ver o filho chorar. Eu nem consigo mais chorar. Não sofro mais de sofrimento, apesar de conviver com a dor de quem amo.
Nós, trabalhadores, seres vis sem alma, aprendemos que a lei que nos rege é isenta de sensibilidade: nossa alegria é o benefício do patrão; nossa adrenalina é uma meta alcançada. No entanto, quando há a crise, ninguém nos ajuda: a nós, só resta a calçada.
E todos os dias têm sido assim: comida pouca, roupas esfarrapadas, frio intenso, preocupação. Se temos que lutar pelo bem da nação, somos todos convocados; quando surge a crise, somos todos dispensados. Meras ferramentas.
Para alguns, é assim: na fábrica, somos alienados; em casa, somos sugados; na rua, mero populacho. E eles, o que são? O progresso e a normalidade. São os que regem a sociedade. Dizem que cuidam da cidade, do estado, do país. Eles são os verdadeiros homens, enquanto nós somos criaturas servis.
Somos todos adestrados através da miséria. Não temos nada e eles têm tudo. Tem dinheiro, títulos, propriedades, tudo oficializado, no papel. Mas a tudo que tem valor, precisa ser dado um valor. E se o valor deles não nos valesse mais nada? Se suas cédulas fossem rasgadas? Seus títulos, que são meras abstrações formais, fossem desvalorizados? Suas propriedades, enfim, descartadas? O que aconteceria se toda a papelada fosse então queimada? Seriam ainda “homens”, ou meras coisas sem alma? Seriam só mais um, como todos nós, ou seus poderes emanam de si?  Iriam continuar a prosperar, ou definitivamente falir?
Para onde iriam (ou ficariam aqui)? Continuariam patrões e senhores, políticos e doutores? Seriam maiores suas dores? Os amores antes comprados, morreriam agora por eles de amores? Teriam uma vida preta e branca, ou continuariam a apreciar as cores? Prefeririam martelos ou flores?
Não sei. Preciso ir trabalhar. Meu filho chora; em casa, não se tem o que cozinhar.
Sofredores do mundo inteiro, uni-vos...


Geni.

(Inspirado na "Crise de 1929", nos Estados Unidos da América.) 

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