domingo, 27 de setembro de 2015

Fuga, do verbo fugir.



O helicóptero sobrevoa, e eu não saio do lugar.
Os ladrões fogem para se esconder.
Eu me escondo para fugir. 

Geni.

(Inspirado em um helicóptero que vi através da janela do quarto.) 


Fugimos aquele dia. Sem rumo, sem direção. Apenas pegamos as bicicletas e pusemos as músicas no celular. Ocultamos-nos da vida com os fones. Não havia mais esquerda, direita, frente, trás. Só íamos para qualquer lugar, para um lugar qualquer. Não sabemos mais como voltar, pois nunca fomos. Não iremos, pois não viemos. Não queremos ser coisa alguma. Não queremos parecer com alguma coisa. Queremos fazer muitas coisas.
Éramos alucinados, utópicos. Mas vivíamos escutando: ordem, moral, valores. Não seriam estes os elementos da utopia? Pedem que haja ordem. Onde há ordem, se ela mesma é desordenada? Como haver ordem se não deixarmos a ordem ordenada? A ordem não simplesmente é. Ela precisa ser. Então ela é desordenada. E a moral? Onde encontrá-la? Não há moral. Ela é difusa. A sua, a minha, a nossa. O seu eu não é o meu, ainda que você seja minha. O que é a moral senão a compilação de tudo em nada? O você, o eu, o nós: nada disso pode ser sintetizado. A moral pretende nos alicerçar em uma coisa só, mas nós mesmos não somos coisa alguma. Somos invariáveis variáveis. Invariáveis porque cada um de nós somos alguma coisa peculiar; variáveis porque sempre somos muitas coisas. E ainda falam de valores? O que é e como é valor? O que é e como é ter valor? O valor é tão abstrato quanto a abstração. Na verdade, é tudo abstrato. A concepção de tudo é abstrata. O material existe, mas a ideia dele é pura abstração. Vamos destruir todos nossos conceitos, nossas ideias sobre as coisas. Vamos romper nossas formas padrões de pensar. Até o que se sente subversivo e desviado, buscando respaldo em seus pensadores franceses pós-60 e seus discípulos, todos eles estão seguindo padrões. Fugir a regra é estabelecer outra regra: “Olha, eles são daqueles que fogem à regra!”. Estes se criam em grupo sem perceber. Mas nunca concordarão com isso. Eles estão para além da normatividade (apenas em suas pobres mentes).
Vamos permitir que as próximas gerações se permitam. Eles precisam mesmo saber que o sol é amarelo ou dourado? Eles precisam mesmo saber quais cores são quais? Deixem que decidam se o branco é preto, se o laranja é lilás, se o verde é marrom. Ou melhor, eles nem precisam de nossas classificações. Apenas deixemos que eles sejam. Mas comecemos por nós. Pois, infelizmente, eles precisarão de um sustentáculo para ser o que serão. Parece que todos precisamos de algum ordenamento. Ah, são as microordens! Porque elas não nos deixam em paz?
Nosso próprio corpo é repleto de microordens. Todo o funcionamento. Tudo possui um sentido que não é sentido. Será que somos capazes de nos sentir? Que angústia, parece que tudo nesse mundo nos converge para algum ordenamento! Seriam forças magnéticas? Talvez espirituais? Como nos mantemos tão congruentes? Por que precisamos fazer algum sentido racional? Por que meus pelos se eriçam ao se arrepiar? É o fluxo natural do corpo? Por que posso sentir minhas unhas, mas não consigo sentir meu sangue? Não sentir ele enquanto algo que toca meu corpo, mas o sangue, por que não consigo senti-lo da mesma forma que sinto minhas pálpebras quando as fecho? Por que não posso nada com essa substância tão substancial, o sangue? Por que consigo contrair minha panturrilha, mas não consigo controlar meu sangue? Por que não consigo me controlar? Sou um descontrolado?
Eu apenas estou escrevendo desgovernadamente, nem reflito. Apenas jogo ideias. Nem sei para que servem. Nem sei se servem. Nem sei. Mas devo acabar logo. Preciso voltar para a bicicleta, para os fones. Daqui a pouco irei tirá-los e daí tudo isso aqui será mera utopia. A utopia ela mesmo utópica. Adeus.
Não farei título. Não colocarei meu nome. Isso aqui parte de mim enquanto materialização gráfica. Mas isso aqui é nulo enquanto não lido. Portanto, possui um tempo atemporal. Possui o tempo de cada um, e, portanto, será sempre vivo. Que cada um absorva absorvido isso. Isso aqui pretende ser tudo que nada é. Pretende ser nada do que tudo. Isso aqui pretende não pretender. Isso aqui. Apenas é sem ser

Geni.

(Inspirado em alguma inspiração inspiradora.) 
As docas de Liverpool.

O vai e vem de caixas,
corpos; navios e suas âncoras.
Metais reluzem pela iluminação moderna.
Homens novos no vigor de sua força física carregam pesadas mercadorias.
Os velhos de muita experiência se contorcem ao peso de sua
própria existência.
Não se pensa, se faz.
Não se sente, suporta.
A metáfora da chuva é choro dos céus.
A metáfora do homem é a aliança da máquina:
Aliada do seu sofrimento,
da privação da própria vida.
Do seu fim.
E todos os dias são assim, 
nas docas de Liverpool.
O triunfo da desgraça,
a tristeza da alegria. 
O começo do fim de uma miserável vida.
O fim do começo de uma vida que não se prolongará.
As cinzas no céu obscurecem os olhos de Deus. 
Inglaterra: tudo se cria, tudo se faz.
Até o próprio inferno.
É a vanguarda da corrosão da alma. 
É o alvorecer do declínio humano. 
O progresso da extinção.
Todos os dias, nas docas de Liverpool.

Geni.

(Inspirado no contexto trabalhista e comercial da Inglaterra no século XIX.)
Desoração.

Ó, Pai nosso que estais nos Céus, não olhai por nós, vossos pecadores. Segue teu rumo, nos deixa na ignorância. Seja tu mesmo ignorante a nossa azarada sorte. Sorte de estar vivo, diante do que é morto; sorte de sorrir, perante toda a tristeza reinante; sorte por correr, quando não temos mais pernas, pois não temos mais chão, pois a concretude se esvaneceu. Ó, Pai nosso, santificado seja o vosso nome, pois o nosso é todo podre. Voluptuosa é nossa volúpia. Nossa imundície é luxo, pois pouco temos para envaidecer-nos: nossa corrupção é, ela mesmo, honesta, pois já não há justiça. Pois não há lei, nem punição. Por isso, não traga a nós o vosso reino, pois por nós ele será tragado. Aqui já não é nem mais feita vossa vontade, nem na terra, nem nos céus.
O pão nosso de cada dia que um dia nos deu, gerou violência e guerra entre os teus; parece a nós que a ti há preferências, pois enquanto uns tem saúde, outros tem doença. Desculpe. Perdoai vossas ofensas, pois não foi essa nossa intenção. Estamos apenas perdidos, sem pé nem mão. Pisamos no alheio, tocamos o intocável. Estamos todos depressivos, bastante mazelados. Mas, ainda que na mesma condição, nunca perdoamos a quem nos tem ofendido, mesmo quando não ofendeu. Pois ofensa maior é a vida que nos mantém. Já não mais caímos em tentação, pois foi ela quem nos derrubou; o que antes era alternativa, hoje é vigente como condição.
Livrai-te do mal, Ó Pai nosso, e pra cá não vem. Saiba que nosso ar é veneno, nossa vida é tortura. Não há mais oração: praguejamos; não há mais solidariedade: nos matamos; não existem mais irmãos e irmãs: apenas estranhos. Não há mais amor: apenas desdém.
E que para aqui não venha, para que tua presença não seja invocada e tua pureza amaldiçoada, tua vida despedaçada, tua força derrotada: a Ti te dedico, de pés e bem alto, para que daí, do teu canto, nos veja: desamém.
Pois ainda bem que és transcendente, Ó, Pai. Pois, aqui em nosso infortunado mundo, tudo que é sólido se desmancha no ar. 

Geni.

Inspirado na imagem abaixo:

"Primeira Missa no Brasil", de Victor Meirelles (1860).
Dança macabra.

Envolvi-me naquela dança. Ao som da floresta vespertina e do aroma floral, fui bailando e bailando e bailando em círculos, de mãos dadas aos demais. Todos de branco, batas e vestidos. Todos de olhos fechados, provocando o êxtase. Ao poucos, o sorriso vai surgindo nos rostos destes que dançam, juntos, em círculo. E, aos poucos, vamos dessurgindo desse mundo e indo a outro irreconhecível.
É tudo escuridão. Alguns feixes de luz, amarelas como o sol. Não sinto meus pés saltando pelo chão. Pareço flutuar. Uma leveza e alegria tomam conta de mim. Brisa e perfume: apenas o que sinto. Sinto-me diferente, ao mesmo tempo que acredito estar encontrando o meu verdadeiro eu. Contraditório. Seria o meu eu tão diferente do que até agora eu acreditava ser? De repente, vejo restos, pedaços de alguma coisa que dançam pelo nada. Não tem uma cor precisa. Não parece ter cor alguma. Parece que é de todas as cores. Estranho.
Ao poucos vejo um círculo claro que parece originar dentro de si um orifício. Surge outro ao seu lado. Ao poucos, forma-se uma abóbada por cima deles. Parece um tipo de máscara, capacete. Não sei. Não tarda em surgir algo estranho: parecem presas. Não, são dentes. Dentes? Espera... Vejo melhor... Parece... Parece... Não, é uma caveira. Sim, uma caveira. E ela me olha.
Olha-me tão profundamente que parece buscar minha alma. Não, não parece. Ela a quer. Sinto um suspiro em meu ouvido, um sopro em minha nuca. Sinto algo penetrar em meu ser. Aquela caveira olhando meu rosto, meu corpo sendo tateado. Não entendo. Mas não me aterrorizo. Parece a caveira fazer parte de mim. E sorrindo, sempre sorrindo. Ela me mostra tantas coisas, mas eu não vejo nada! Como pode? Vi tantas coisas, mas não tenho nada sequer delineado em minha mente. Vi sem imagens. Não como um cego, mas como alguém que vê, sabe o que é mas não a ilustra em sua mente. Estranho. Mas bom. Muito bom. Ainda sinto seu suspiro. Seu hálito frio em minha face. Sinto um doce apertar em minha cintura, e um toque suave que percorre a pele por sobre minha espinha. Que bom, que bom! Espero que nunca acabe.
Continuo olhando para caveira. Ela também me observa. Continuo vendo coisas sem ver nada. Nada! “Eu fui você”, diz ela. “Você será eu”, diz novamente. “Eu sou o fim; você é o início dele. Mas não se atormente, não vim perturbá-la. Vim como alguém que quer fazer o bem para si mesmo. Você viu sem ver. É para que você não saiba o que vai acontecer, mas sim que acontecerá algo. Descubra. Descubra-se. Viva, deixa a morte morta. Caçoe de seu nome; ignore seu propósito; dance ao seu redor. Faça da morte sua criada, não sua senhora. Não a sirva com medos e desesperos. Deixa-a que se transtorne ao vê-la feliz e deslumbrante. Depois, ordene-a que recolha os seus sorrisos. Dê a ela como migalha um pouco de lágrima, mas não de tristeza. Deixe-a queimar-se com esse líquido tão dúbio. Ao pensar que é de tristeza, ela sentirá que é de alegria. Ela ficará atormentada. Divirta-se. Sempre. Diante do alegre ou diante do macabro. Saiba que, um dia, você será eu. Saiba o que eu sou: nada. Saiba que acima da terra tu és bela e radiante, colorida e perfumada. Quando vir a tornar-se o que sou, será apenas ossos mergulhados em barro. O que há de bom nisso? Serás tão importante como uma rainha, pois não terá importância de nada, lá embaixo. Por isso, não se esqueça: tu nasces do nada, e ao nada tu retornas. Não busque ser mais importante dos os que estão ao teu lado. Faço-os serem importantes! Contagia-os com tua alegria sincera e serena. Faça com que eles também te queiram fazer importante, e assim uns aos outros, em um círculo interminável de aventuranças. Faço-os, de todos eles, apenas um só e sejas tu uma parte desse todo. Lembre-se: a diferença, é a consciência que constrói; a igualdade, é a natureza que dispõe. Pensar em ser grande pode ser prazeroso;  realizar a grandeza custa um preço. Exilar-se da fama te fará anônima, mas o prazer que receberás será gratuito, eterno e inesquecível. Não busque a Deus nem a Satã; busque a ti e aos outros. Se juntem, se misturem, se penetrem. Sintam um ao outro como se fossem parte de um só ser. Pulem, corram, sorriam, cantem, suspirem, dancem! Dancem! Dancem a dança macabra!”


Geni.

(Inspirado em trecho do livro "O Outono da Idade Média", de Johan Huizinga.)
Arqueiro.

Entre os bosques ele se esconde,
Espreita por sua caça.
São poucos os que ainda restam,
Dessa sua nobre raça.

Camuflado entre as árvores,
Não teme mal algum.
Mas quem por acaso ousar desafiá-lo,
Enfrentará um guerreiro incomum.

Aliás, nem guerreiro é considerado.
Por cavaleiros é desprezado.
Mas se seu arco vier a empunhar,
O inimigo certamente será eliminado.

Sem honra, pois não serve a ninguém.
Não cultiva moralidade.
Em castelos, sua figura é ultrajada.
Mas o povo o clama na cidade.

“Como pode um homem”, perguntam,
“Aniquilar com uma simples tira de madeira”.
Ah, são poucos os capazes de entender...
... O treinamento de uma vida inteira.

Não é soldado, mas de lutar é capaz;
Não é suserano, mas sabe liderar;
Vive apenas do que a natureza lhe fornece:
Da fauna e da flora seu coração se engrandece.

Para sua vida ficar completa,
Falta alguém para amar.
Assim, cheio de esplendor estaria:
O Arqueiro de além-mar.

Geni.


(Inspirado em trecho do livro “O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval”, de Jacques Le Goff.)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A crise.

Mais um dia de luta. Sem emprego, sem dinheiro, sem comida. Uma crise nunca antes vista. Todos os dias saio em busca de oportunidade. É doloroso ouvir o choro do filho sem pão; da mulher, que chora ao ver o filho chorar. Eu nem consigo mais chorar. Não sofro mais de sofrimento, apesar de conviver com a dor de quem amo.
Nós, trabalhadores, seres vis sem alma, aprendemos que a lei que nos rege é isenta de sensibilidade: nossa alegria é o benefício do patrão; nossa adrenalina é uma meta alcançada. No entanto, quando há a crise, ninguém nos ajuda: a nós, só resta a calçada.
E todos os dias têm sido assim: comida pouca, roupas esfarrapadas, frio intenso, preocupação. Se temos que lutar pelo bem da nação, somos todos convocados; quando surge a crise, somos todos dispensados. Meras ferramentas.
Para alguns, é assim: na fábrica, somos alienados; em casa, somos sugados; na rua, mero populacho. E eles, o que são? O progresso e a normalidade. São os que regem a sociedade. Dizem que cuidam da cidade, do estado, do país. Eles são os verdadeiros homens, enquanto nós somos criaturas servis.
Somos todos adestrados através da miséria. Não temos nada e eles têm tudo. Tem dinheiro, títulos, propriedades, tudo oficializado, no papel. Mas a tudo que tem valor, precisa ser dado um valor. E se o valor deles não nos valesse mais nada? Se suas cédulas fossem rasgadas? Seus títulos, que são meras abstrações formais, fossem desvalorizados? Suas propriedades, enfim, descartadas? O que aconteceria se toda a papelada fosse então queimada? Seriam ainda “homens”, ou meras coisas sem alma? Seriam só mais um, como todos nós, ou seus poderes emanam de si?  Iriam continuar a prosperar, ou definitivamente falir?
Para onde iriam (ou ficariam aqui)? Continuariam patrões e senhores, políticos e doutores? Seriam maiores suas dores? Os amores antes comprados, morreriam agora por eles de amores? Teriam uma vida preta e branca, ou continuariam a apreciar as cores? Prefeririam martelos ou flores?
Não sei. Preciso ir trabalhar. Meu filho chora; em casa, não se tem o que cozinhar.
Sofredores do mundo inteiro, uni-vos...


Geni.

(Inspirado na "Crise de 1929", nos Estados Unidos da América.)