Fugimos
aquele dia. Sem rumo, sem direção. Apenas pegamos as bicicletas e pusemos as
músicas no celular. Ocultamos-nos da vida com os fones. Não havia mais
esquerda, direita, frente, trás. Só íamos para qualquer lugar, para um lugar
qualquer. Não sabemos mais como voltar, pois nunca fomos. Não iremos, pois não
viemos. Não queremos ser coisa alguma. Não queremos parecer com alguma coisa.
Queremos fazer muitas coisas.
Éramos
alucinados, utópicos. Mas vivíamos escutando: ordem, moral, valores. Não seriam
estes os elementos da utopia? Pedem que haja ordem. Onde há ordem, se ela mesma
é desordenada? Como haver ordem se não deixarmos a ordem ordenada? A ordem não
simplesmente é. Ela precisa ser. Então ela é desordenada. E a moral?
Onde encontrá-la? Não há moral. Ela é
difusa. A sua, a minha, a nossa. O seu eu
não é o meu, ainda que você seja minha.
O que é a moral senão a compilação de tudo
em nada? O você, o eu, o nós: nada disso pode ser sintetizado. A
moral pretende nos alicerçar em uma coisa só, mas nós mesmos não somos coisa
alguma. Somos invariáveis variáveis. Invariáveis
porque cada um de nós somos alguma coisa peculiar; variáveis porque sempre somos muitas coisas. E ainda falam de
valores? O que é e como é valor? O que é e como é ter valor? O valor é tão
abstrato quanto a abstração. Na verdade, é tudo abstrato. A concepção de tudo é
abstrata. O material existe, mas a ideia dele é pura abstração. Vamos destruir
todos nossos conceitos, nossas ideias sobre as coisas. Vamos romper nossas
formas padrões de pensar. Até o que se sente subversivo e desviado, buscando
respaldo em seus pensadores franceses pós-60 e seus discípulos, todos eles
estão seguindo padrões. Fugir a regra é estabelecer outra regra: “Olha, eles
são daqueles que fogem à regra!”. Estes se criam em grupo sem perceber. Mas
nunca concordarão com isso. Eles estão para além da normatividade (apenas em suas pobres mentes).
Vamos
permitir que as próximas gerações se permitam. Eles precisam mesmo saber que o
sol é amarelo ou dourado? Eles precisam mesmo saber quais cores são quais?
Deixem que decidam se o branco é preto, se o laranja é lilás, se o verde é
marrom. Ou melhor, eles nem precisam de nossas classificações. Apenas deixemos
que eles sejam. Mas comecemos por nós. Pois, infelizmente, eles precisarão de
um sustentáculo para ser o que serão. Parece que todos precisamos de algum
ordenamento. Ah, são as microordens! Porque elas não nos deixam em paz?
Nosso
próprio corpo é repleto de microordens. Todo o funcionamento. Tudo possui um
sentido que não é sentido. Será que
somos capazes de nos sentir? Que angústia, parece que tudo nesse mundo nos converge
para algum ordenamento! Seriam forças magnéticas? Talvez espirituais? Como nos
mantemos tão congruentes? Por que precisamos fazer algum sentido racional? Por
que meus pelos se eriçam ao se arrepiar? É o fluxo natural do corpo? Por que
posso sentir minhas unhas, mas não consigo sentir meu sangue? Não sentir ele
enquanto algo que toca meu corpo, mas o sangue, por que não consigo senti-lo da
mesma forma que sinto minhas pálpebras quando as fecho? Por que não posso nada
com essa substância tão substancial, o sangue? Por que consigo contrair minha
panturrilha, mas não consigo controlar meu sangue? Por que não consigo me
controlar? Sou um descontrolado?
Eu
apenas estou escrevendo desgovernadamente, nem reflito. Apenas jogo ideias. Nem
sei para que servem. Nem sei se servem. Nem sei. Mas devo acabar logo. Preciso
voltar para a bicicleta, para os fones. Daqui a pouco irei tirá-los e daí tudo
isso aqui será mera utopia. A utopia ela mesmo utópica. Adeus.
Não
farei título. Não colocarei meu nome. Isso aqui parte de mim enquanto
materialização gráfica. Mas isso aqui é nulo enquanto não lido. Portanto,
possui um tempo atemporal. Possui o tempo de cada um, e, portanto, será sempre
vivo. Que cada um absorva absorvido isso.
Isso aqui pretende ser tudo que nada é. Pretende ser nada do que tudo. Isso
aqui pretende não pretender. Isso aqui. Apenas é sem ser.
Geni.
(Inspirado em alguma inspiração inspiradora.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário