domingo, 27 de setembro de 2015

Desoração.

Ó, Pai nosso que estais nos Céus, não olhai por nós, vossos pecadores. Segue teu rumo, nos deixa na ignorância. Seja tu mesmo ignorante a nossa azarada sorte. Sorte de estar vivo, diante do que é morto; sorte de sorrir, perante toda a tristeza reinante; sorte por correr, quando não temos mais pernas, pois não temos mais chão, pois a concretude se esvaneceu. Ó, Pai nosso, santificado seja o vosso nome, pois o nosso é todo podre. Voluptuosa é nossa volúpia. Nossa imundície é luxo, pois pouco temos para envaidecer-nos: nossa corrupção é, ela mesmo, honesta, pois já não há justiça. Pois não há lei, nem punição. Por isso, não traga a nós o vosso reino, pois por nós ele será tragado. Aqui já não é nem mais feita vossa vontade, nem na terra, nem nos céus.
O pão nosso de cada dia que um dia nos deu, gerou violência e guerra entre os teus; parece a nós que a ti há preferências, pois enquanto uns tem saúde, outros tem doença. Desculpe. Perdoai vossas ofensas, pois não foi essa nossa intenção. Estamos apenas perdidos, sem pé nem mão. Pisamos no alheio, tocamos o intocável. Estamos todos depressivos, bastante mazelados. Mas, ainda que na mesma condição, nunca perdoamos a quem nos tem ofendido, mesmo quando não ofendeu. Pois ofensa maior é a vida que nos mantém. Já não mais caímos em tentação, pois foi ela quem nos derrubou; o que antes era alternativa, hoje é vigente como condição.
Livrai-te do mal, Ó Pai nosso, e pra cá não vem. Saiba que nosso ar é veneno, nossa vida é tortura. Não há mais oração: praguejamos; não há mais solidariedade: nos matamos; não existem mais irmãos e irmãs: apenas estranhos. Não há mais amor: apenas desdém.
E que para aqui não venha, para que tua presença não seja invocada e tua pureza amaldiçoada, tua vida despedaçada, tua força derrotada: a Ti te dedico, de pés e bem alto, para que daí, do teu canto, nos veja: desamém.
Pois ainda bem que és transcendente, Ó, Pai. Pois, aqui em nosso infortunado mundo, tudo que é sólido se desmancha no ar. 

Geni.

Inspirado na imagem abaixo:

"Primeira Missa no Brasil", de Victor Meirelles (1860).

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