Desoração.
Ó,
Pai nosso que estais nos Céus, não olhai por nós, vossos pecadores. Segue teu
rumo, nos deixa na ignorância. Seja tu mesmo ignorante a nossa azarada sorte.
Sorte de estar vivo, diante do que é morto; sorte de sorrir, perante toda a
tristeza reinante; sorte por correr, quando não temos mais pernas, pois não
temos mais chão, pois a concretude se esvaneceu. Ó, Pai nosso, santificado seja
o vosso nome, pois o nosso é todo podre. Voluptuosa é nossa volúpia. Nossa
imundície é luxo, pois pouco temos para envaidecer-nos: nossa corrupção é, ela
mesmo, honesta, pois já não há justiça. Pois não há lei, nem punição. Por isso,
não traga a nós o vosso reino, pois por nós ele será tragado. Aqui já não é nem
mais feita vossa vontade, nem na terra, nem nos céus.
O
pão nosso de cada dia que um dia nos deu, gerou violência e guerra entre os
teus; parece a nós que a ti há preferências, pois enquanto uns tem saúde,
outros tem doença. Desculpe. Perdoai vossas ofensas, pois não foi essa nossa
intenção. Estamos apenas perdidos, sem pé nem mão. Pisamos no alheio, tocamos o
intocável. Estamos todos depressivos, bastante mazelados. Mas, ainda que na
mesma condição, nunca perdoamos a quem nos tem ofendido, mesmo quando não
ofendeu. Pois ofensa maior é a vida que nos mantém. Já não mais caímos em
tentação, pois foi ela quem nos derrubou; o que antes era alternativa, hoje é
vigente como condição.
Livrai-te
do mal, Ó Pai nosso, e pra cá não vem. Saiba que nosso ar é veneno, nossa vida
é tortura. Não há mais oração: praguejamos; não há mais solidariedade: nos
matamos; não existem mais irmãos e irmãs: apenas estranhos. Não há mais amor:
apenas desdém.
E
que para aqui não venha, para que tua presença não seja invocada e tua pureza
amaldiçoada, tua vida despedaçada, tua força derrotada: a Ti te dedico, de pés
e bem alto, para que daí, do teu canto, nos veja: desamém.
Pois
ainda bem que és transcendente, Ó, Pai. Pois, aqui em nosso infortunado mundo,
tudo que é sólido se desmancha no ar.
Geni.
Inspirado na imagem abaixo:
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"Primeira Missa no Brasil", de Victor Meirelles (1860).

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