Dança macabra.
Envolvi-me
naquela dança. Ao som da floresta vespertina e do aroma floral, fui bailando e
bailando e bailando em círculos, de mãos dadas aos demais. Todos de branco,
batas e vestidos. Todos de olhos fechados, provocando o êxtase. Ao poucos, o
sorriso vai surgindo nos rostos destes que dançam, juntos, em círculo. E, aos
poucos, vamos dessurgindo desse mundo
e indo a outro irreconhecível.
É
tudo escuridão. Alguns feixes de luz, amarelas como o sol. Não sinto meus pés
saltando pelo chão. Pareço flutuar. Uma leveza e alegria tomam conta de mim.
Brisa e perfume: apenas o que sinto. Sinto-me diferente, ao mesmo tempo que
acredito estar encontrando o meu verdadeiro eu. Contraditório. Seria o meu eu
tão diferente do que até agora eu acreditava ser? De repente, vejo restos,
pedaços de alguma coisa que dançam pelo nada. Não tem uma cor precisa. Não
parece ter cor alguma. Parece que é de todas as cores. Estranho.
Ao
poucos vejo um círculo claro que parece originar dentro de si um orifício.
Surge outro ao seu lado. Ao poucos, forma-se uma abóbada por cima deles. Parece
um tipo de máscara, capacete. Não sei. Não tarda em surgir algo estranho:
parecem presas. Não, são dentes. Dentes? Espera... Vejo melhor... Parece... Parece...
Não, é uma caveira. Sim, uma caveira. E ela me olha.
Olha-me
tão profundamente que parece buscar minha alma. Não, não parece. Ela a quer.
Sinto um suspiro em meu ouvido, um sopro em minha nuca. Sinto algo penetrar em
meu ser. Aquela caveira olhando meu rosto, meu corpo sendo tateado. Não
entendo. Mas não me aterrorizo. Parece a caveira fazer parte de mim. E
sorrindo, sempre sorrindo. Ela me mostra tantas coisas, mas eu não vejo nada!
Como pode? Vi tantas coisas, mas não tenho nada sequer delineado em minha
mente. Vi sem imagens. Não como um cego, mas como alguém que vê, sabe o que é
mas não a ilustra em sua mente. Estranho. Mas bom. Muito bom. Ainda sinto seu
suspiro. Seu hálito frio em minha face. Sinto um doce apertar em minha cintura,
e um toque suave que percorre a pele por sobre minha espinha. Que bom, que bom!
Espero que nunca acabe.
Continuo
olhando para caveira. Ela também me observa. Continuo vendo coisas sem ver
nada. Nada! “Eu fui você”, diz ela. “Você será eu”, diz novamente. “Eu sou o
fim; você é o início dele. Mas não se atormente, não vim perturbá-la. Vim como
alguém que quer fazer o bem para si mesmo. Você viu sem ver. É para que você
não saiba o que vai acontecer, mas sim que acontecerá algo. Descubra.
Descubra-se. Viva, deixa a morte morta. Caçoe de seu nome; ignore seu
propósito; dance ao seu redor. Faça da morte sua criada, não sua senhora. Não a
sirva com medos e desesperos. Deixa-a que se transtorne ao vê-la feliz e
deslumbrante. Depois, ordene-a que recolha os seus sorrisos. Dê a ela como
migalha um pouco de lágrima, mas não de tristeza. Deixe-a queimar-se com esse
líquido tão dúbio. Ao pensar que é de tristeza, ela sentirá que é de alegria.
Ela ficará atormentada. Divirta-se. Sempre. Diante do alegre ou diante do
macabro. Saiba que, um dia, você será eu. Saiba o que eu sou: nada. Saiba que
acima da terra tu és bela e radiante, colorida e perfumada. Quando vir a
tornar-se o que sou, será apenas ossos mergulhados em barro. O que há de bom
nisso? Serás tão importante como uma rainha, pois não terá importância de nada,
lá embaixo. Por isso, não se esqueça: tu nasces do nada, e ao nada tu retornas.
Não busque ser mais importante dos os que estão ao teu lado. Faço-os serem
importantes! Contagia-os com tua alegria sincera e serena. Faça com que eles
também te queiram fazer importante, e assim uns aos outros, em um círculo
interminável de aventuranças. Faço-os, de todos eles, apenas um só e sejas tu
uma parte desse todo. Lembre-se: a diferença, é a consciência que constrói; a
igualdade, é a natureza que dispõe. Pensar em ser grande pode ser prazeroso; realizar a grandeza custa um preço. Exilar-se
da fama te fará anônima, mas o prazer que receberás será gratuito, eterno e
inesquecível. Não busque a Deus nem a Satã; busque a ti e aos outros. Se
juntem, se misturem, se penetrem. Sintam um ao outro como se fossem parte de um
só ser. Pulem, corram, sorriam, cantem, suspirem, dancem! Dancem! Dancem a
dança macabra!”
Geni.
(Inspirado em trecho do livro "O Outono da Idade Média", de Johan Huizinga.)
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